Musculação além da estética: evidências científicas recentes e os impactos na prevenção do câncer de mama

Por muito tempo, a musculação foi vista quase exclusivamente como uma prática voltada à estética e ao ganho de força. Hoje, no entanto, a ciência tem mostrado um cenário bem mais amplo. Evidências recentes reforçam que o treinamento com pesos é uma das ferramentas mais consistentes da medicina preventiva, com efeitos importantes sobre a saúde metabólica, imunológica e funcional.

Para as mulheres, especialmente quando falamos de saúde mamária, pesquisas publicadas em 2024 e 2025 têm fortalecido a compreensão de que a musculação pode atuar como uma aliada tanto na prevenção quanto como suporte complementar durante e após o tratamento do câncer de mama. Isso vale desde que o exercício seja prescrito de forma individualizada e, quando necessário, acompanhado por profissionais capacitados e alinhados à equipe de saúde.

Um dos achados mais interessantes desse período vem de um estudo publicado em 2025 na revista Breast Cancer Research and Treatment, uma das publicações de referência da área. Esse trabalho avaliou sobreviventes de câncer de mama e observou que uma única sessão de musculação ou de treino intervalado de alta intensidade (HIIT) foi capaz de aumentar significativamente a liberação de miocinas associadas a efeitos anticâncer. As miocinas são substâncias produzidas e liberadas pelos músculos durante o exercício, o que reforça a ideia de que o músculo não é apenas um tecido mecânico, mas também um órgão metabolicamente ativo, com papel endócrino.

Nesse mesmo estudo, o soro sanguíneo, ou seja, a parte líquida do sangue coletada após o exercício, demonstrou, em ambiente laboratorial (in vitro), a capacidade de suprimir o crescimento de células cancerígenas. Esse achado ajuda a compreender, de forma biologicamente plausível, como a atividade física pode contribuir para um ambiente menos favorável ao desenvolvimento tumoral e, potencialmente, para estratégias de redução de risco e prevenção de recidivas.

Além disso, uma metanálise, estudo que reúne e analisa várias pesquisas, publicada em 2025 na revista Scientific Reports, reforçou que o treinamento de força promove adaptações neuromusculares que vão muito além do simples aumento de massa muscular. Em termos práticos, isso significa que a musculação melhora a comunicação entre o sistema nervoso e os músculos, tornando os movimentos mais coordenados e seguros; favorece a função das mitocôndrias, responsáveis pela produção de energia, o que pode se refletir em mais disposição e vitalidade; reduz o estresse oxidativo sistêmico, um processo associado ao envelhecimento e ao desenvolvimento de doenças crônicas; e modula de forma positiva a resposta do sistema imunológico, fortalecendo defesas e ajudando o corpo a regular processos inflamatórios.

Em conjunto, esses efeitos ajudam a explicar por que a musculação se relaciona não apenas com desempenho físico, mas também com longevidade e prevenção de agravos, entendida como a redução do risco de piora da saúde, de complicações e de perdas funcionais ao longo do tempo, mesmo em pessoas que já apresentam fatores de risco ou histórico de doença.

No campo específico da saúde da mulher e do câncer de mama, o conjunto das evidências recentes em oncologia do exercício aponta benefícios consistentes do treinamento com pesos para preservar massa muscular e densidade óssea, melhorar o perfil metabólico e cardiometabólico, reduzir fadiga, ampliar a capacidade funcional e melhorar a qualidade de vida, incluindo sono e saúde mental. Esses ganhos têm impacto direto no cotidiano, favorecendo autonomia, independência e o retorno às atividades pessoais e profissionais, aspectos especialmente relevantes durante e após tratamentos oncológicos.

Nesse cenário, também é importante enfrentar mitos que ainda afastam muitas mulheres da musculação. A ideia de que “mulher não deve pegar peso” não se sustenta à luz da ciência. Mulheres podem e devem treinar força, com progressão adequada e atenção à técnica e à regularidade. Da mesma forma, a noção de que a musculação é, por definição, perigosa durante o tratamento é uma generalização incorreta. Em muitos casos, ela pode ser realizada com segurança quando adaptada e supervisionada, sendo inclusive recomendada por diretrizes e organizações de referência como parte do cuidado integral.

Em síntese, musculação não é apenas estética: éproteção, autonomia e investimentoem saúde. Quando bem orientada, torna-se uma estratégia prática e eficaz para melhorar a composição corporal, fortalecer o corpo e sustentar mecanismos biológicos associados à prevenção de doenças, inclusive no contexto do câncer de mama.

A pergunta central deixa de ser “por que fazer musculação?” e passa a ser “como começar de forma segura, consistente e constante?”, porque, em saúde, a constância costuma valer mais do que a intensidade ocasional, e adiar o início frequentemente custa mais do que ajustar o plano.

Sua Saúde, Sua Responsabilidade, Sua Decisão. Adulto faz o necessário, independente da vontade. Aja!

Referência científicaBreast Cancer Research and Treatment (2025).
A single bout of resistance or high-intensity interval training increases anti-cancer myokines and suppresses cancer cell growth in vitro in survivors of breast cancer.
DOI: 10.1007/s10549-025-07772-w

Dr. Rodrigo Campos Christo
Mastologista/Cirurgião Oncológico/Oncoplastia Mamária

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