Menos cirurgia, mesma segurança: novas formas de tratar a axila no Câncer de Mama

Por muitos anos, operar a axila foi considerado uma etapa obrigatória no tratamento do câncer de mama. A lógica parecia simples: como os linfonodos podem ser uma via de disseminação da doença, removê-los ajudaria no controle do câncer e forneceria informações importantes para o estadiamento. Com o avanço da ciência, essa visão mudou. Hoje sabemos que nem toda paciente se beneficia de cirurgias mais extensas na axila e que, em muitos cenários, é possível reduzir e, em casos bem selecionados, até evitar a intervenção cirúrgica sem comprometer desfechos importantes, como o controle da doença e a sobrevida. O principal ganho costuma vir na forma de menos complicações, especialmente linfedema, dor crônica e limitações de movimento no braço e no ombro.

A grande mudança prática começou com a biópsia do linfonodo sentinela. Em vez de retirar vários linfonodos de uma vez, procedimento conhecido como esvaziamento axilar, o cirurgião identifica e remove apenas os primeiros linfonodos que recebem a drenagem da mama, aqueles com maior probabilidade de conter células tumorais caso haja disseminação. Se esses linfonodos estiverem livres de doença, a chance de comprometimento axilar relevante é baixa e a paciente se beneficia de uma abordagem menos agressiva. Com o tempo, a pergunta deixou de ser apenas “biópsia do sentinela ou esvaziamento?” e passou a ser “quando é possível não esvaziar, mesmo com sentinela positivo?” e “quando se pode não operar a axila de forma alguma?”.

Em mulheres com câncer de mama inicial e axila sem sinais de doença ao exame clínico e ao ultrassom, estudos recentes sustentam que, para grupos selecionados, pode ser seguro omitir completamente a cirurgia axilar. Os estudos SOUND e INSEMA, este último publicado no New England Journal of Medicine, avaliaram justamente esse cenário e mostraram resultados muito próximos entre as pacientes operadas e as não operadas na axila, com recorrências raras em ambos os grupos. Na prática, isso abre espaço para uma discussão mais personalizada: em algumas pacientes, a informação que a cirurgia traria não mudaria o plano de tratamento e, portanto, pode não justificar o risco de complicações.

Quando a biópsia do linfonodo sentinela é realizada e o resultado é positivo, muitas pessoas imaginam que o próximo passo é inevitável: retirar o restante da axila. Aqui também houve uma mudança importante. O estudo ACOSOG Z0011 acompanhou mulheres com câncer de mama inicial, sem linfonodos palpáveis, tratadas com cirurgia conservadora e com poucos linfonodos sentinelas positivos. O estudo demonstrou, em seguimento de longo prazo, que não realizar o esvaziamento nesses casos não piorou a sobrevida global. Para muitas pacientes dentro desse contexto, incluindo radioterapia e tratamento sistêmico conforme indicação, o esvaziamento pode ser evitado, preservando qualidade de vida sem abrir mão da segurança oncológica.

Em situações nas quais existe a dúvida entre operar ou tratar a axila com radioterapia, o ensaio AMAROS é uma referência importante. Ele comparou esvaziamento axilar com radioterapia axilar em pacientes com linfonodo sentinela positivo e demonstrou excelente controle regional em ambos os grupos, com diferença relevante a favor da radioterapia no risco de linfedema. Isso não significa que a radioterapia substitua a cirurgia em todos os casos, mas reforça que existem alternativas eficazes e menos agressivas quando o objetivo é o controle regional e o contexto clínico permite essa escolha.

O volume da doença encontrada no linfonodo também pesa na decisão. Quando o achado é muito pequeno, tecnicamente chamado de micrometástase, estudos mostraram que omitir o esvaziamento axilar pode ser seguro, sem prejuízo relevante para os desfechos oncológicos. Nesses casos, o custo da cirurgia mais extensa tende a ser maior do que o benefício que ela oferece.

O cenário das pacientes que fazem quimioterapia antes da cirurgia, o chamado tratamento neoadjuvante, exige atenção especial, pois a axila pode mudar significativamente após o tratamento. Linfonodos que estavam comprometidos no diagnóstico podem responder e não apresentar mais doença detectável. Nesses casos, é possível discutir abordagens menos extensas, mas com cautela, porque a decisão depende de como a axila estava no início, de como respondeu ao tratamento e da técnica utilizada para avaliá-la na cirurgia. Quando persiste doença linfonodal relevante, o esvaziamento segue sendo necessário.

No fim, “menos cirurgia” não é um slogan: é uma forma de pensar baseada em risco e benefício. A decisão sobre a axila integra exame clínico, imagem, características do tumor, tipo de cirurgia da mama, plano de radioterapia, resposta ao tratamento sistêmico e preferências da paciente. Em serviços bem estruturados, isso é discutido em equipe multidisciplinar, porque a axila não é um capítulo isolado: ela faz parte do plano terapêutico como um todo.

FAQ

Se não operar a axila, fico “sem estadiamento” e com tratamento incompleto?

Nem sempre. Atualmente, muitas decisões de tratamento dependem mais da biologia do tumor, como receptores hormonais e HER2, do que do número exato de linfonodos retirados. Em pacientes selecionadas, omitir a cirurgia axilar pode ser seguro quando essa informação não mudaria condutas importantes e quando o restante do tratamento está bem estruturado.

Se o sentinela for positivo, por que não tirar tudo “para garantir”?

Porque “tirar tudo” tem consequências reais. Em cenários específicos, estudos mostraram que o esvaziamento não trouxe ganho proporcional em desfechos principais, enquanto aumenta o risco de linfedema, dor crônica e limitação funcional do braço. A decisão deve pesar o que se ganha e o que se perde.

O que aumenta mais o risco de linfedema: a biópsia do sentinela ou o esvaziamento?

O risco existe com qualquer intervenção axilar, mas é significativamente maior com o esvaziamento. Esse é um dos principais motivos pelos quais a tendência atual é reduzir cirurgias na axila sempre que for seguro fazê-lo.

Em quem ainda faz sentido esvaziar a axila?

Em geral, quando há comprometimento linfonodal mais extenso, persistência de doença após tratamento neoadjuvante, ou quando o resultado da cirurgia mudaria claramente o plano de tratamento. Cada caso precisa ser avaliado individualmente.

Quem faz mastectomia pode omitir a cirurgia axilar do mesmo modo que quem faz cirurgia conservadora?

Não necessariamente. Parte das evidências que permitem reduzir a cirurgia axilar está associada ao contexto de cirurgia conservadora com radioterapia. Em mastectomia, o planejamento pode ser diferente, exigindo ainda mais individualização.

Depois de quimioterapia antes da cirurgia, é possível evitar o esvaziamento mesmo tendo tido linfonodos positivos no início?

Em alguns casos, sim. Depende de como a axila estava no diagnóstico, de como respondeu ao tratamento e da técnica empregada na avaliação cirúrgica. Quando ainda há doença residual relevante, o esvaziamento segue sendo indicado na maioria dos casos.

Dr. Rodrigo Campos Christo
Mastologista/Cirurgião de Mamas

* Conteúdo informativo. Não substitui a necessidade de consulta médica, exame físico e orientação individualizada.

Referências bibliográficas

  1. Reimer T, et al. Axillary Surgery in Breast Cancer. Primary Results of the INSEMA Trial. New England Journal of Medicine. 2024.
  2. Gentilini OD, et al. Sentinel Lymph Node Biopsy vs No Axillary Surgery. The SOUND Randomized Clinical Trial.
  3. Giuliano AE, et al. Effect of Axillary Dissection vs No Axillary Dissection on 10-Year Overall Survival. ACOSOG Z0011. JAMA. 2017.
  4. Donker M, et al. Radiotherapy or Surgery of the Axilla After a Positive Sentinel Node. 10-Year Results of the AMAROS Trial. Journal of Clinical Oncology. 2023.
  5. Galimberti V, et al. Axillary dissection versus no axillary dissection in patients with sentinel-node micrometastases. IBCSG 23-01: 10-year follow-up. The Lancet Oncology. 2018.
  6. Boughey JC, et al. Sentinel Lymph Node Surgery after Neoadjuvant Chemotherapy. ACOSOG Z1071. JAMA. 2013.
  7. Park KU, et al. Sentinel Lymph Node Biopsy in Early-Stage Breast Cancer: ASCO Guideline Update. Journal of Clinical Oncology. 2025.

Está gostando do conteúdo? Compartilhe nas suas redes sociais!