Novembro Azul
Vergonha não pode adiar o diagnóstico: o consultório de mastologia também é lugar de homens
Sabemos que o homem também pode ter câncer de mama e que a falta de informação faz com que muitos demorem a procurar atendimento. Neste texto, vamos tratar de um obstáculo que raramente é dito em voz alta, mas que aparece com frequência nos relatos dos pacientes: a vergonha. E vamos explicar, de forma simples, o que acontece quando um homem decide procurar o mastologista.
O que os homens relatam
Um estudo publicado em 2020 na revista científica Cancer Medicine, conduzido em Hong Kong, entrevistou 31 homens tratados de câncer de mama e perguntou diretamente sobre o constrangimento. Mais de 90% relataram algum grau de vergonha ao perceber o sintoma na mama, e 58% descreveram esse sentimento como intenso. Segundo os autores, todos os que se sentiram constrangidos admitiram que isso os fez hesitar antes de buscar ajuda.
O desconforto não terminava ao decidir pela consulta. Mais de 90% dos entrevistados também se sentiram constrangidos na sala de espera do centro de mamas, cercados por pacientes mulheres. Alguns contaram que eram vistos como acompanhantes de suas esposas, e não como pacientes. Além disso, cerca de 1 em cada 4 homens não contou a ninguém sobre o sintoma antes de ir ao médico.
Masculinidade, imagem corporal e sofrimento
Esses relatos encontram eco em outras pesquisas citadas pelos mesmos autores. Em um estudo norte-americano com 28 homens que tinham casos de câncer de mama na família, cerca de 43% disseram que um diagnóstico de câncer de mama poderia levá-los a questionar a própria masculinidade. Em outro estudo, realizado no Reino Unido com 161 homens com a doença, 23% apresentaram níveis elevados de sofrimento específico relacionado ao câncer. Os autores apontaram como possíveis fatores de risco para esse sofrimento a imagem corporal negativa, a tendência a evitar o assunto, o medo e a incerteza em relação à doença e a falta de informações adequadas.
Reconhecer esses sentimentos é importante. Eles não são sinal de fraqueza, e sim reações compreensíveis diante de uma doença que a sociedade associa ao corpo feminino. O problema surge quando esses sentimentos se transformam em adiamento, porque, no câncer de mama, o tempo até o diagnóstico tem impacto sobre o tratamento.
O papel de quem está ao lado
O mesmo estudo trouxe um dado que merece atenção especial: 61,3% dos homens contaram primeiro à esposa quando perceberam o sintoma. Os autores destacam que parceiras atentas e participativas incentivaram os homens a procurar ajuda mais cedo, e que uma boa relação conjugal ofereceu suporte emocional importante durante o processo.
Esse achado dialoga com outra pesquisa citada no artigo, publicada no American Journal of Men’s Health. O estudo analisou 3.761 homens com câncer de mama registrados na base de dados norte-americana SEER entre 1990 e 2011. Os não casados tiveram quase o dobro de chance de já apresentar a doença em estágio IV no momento do diagnóstico e um risco de morte pela doença 43% maior. O dado não significa que o estado civil, por si só, determine o desfecho; ele indica a importância de ter alguém próximo que escute, incentive e acompanhe.
Por isso, a mulher que segue este perfil pode ser a pessoa que faz a diferença na vida de um pai, marido, irmão ou amigo. Ao perceber que ele comenta uma alteração na mama, ou ao notar que ele evita o assunto, incentivar a consulta é um gesto de cuidado.
O que acontece na consulta
Conhecer o caminho ajuda a reduzir a ansiedade. A avaliação começa com uma conversa sobre os sintomas, o histórico de saúde e os casos de câncer na família. Em seguida, é feito o exame clínico das mamas e das axilas. Conforme a necessidade, podem ser solicitados exames de imagem, como mamografia e ultrassonografia. Quando há uma alteração suspeita, a confirmação é feita, segundo o INCA, pelo exame histopatológico, a biópsia, um procedimento que retira uma pequena amostra de tecido para análise.
Como lembra o INCA, as alterações na mama precisam ser investigadas, mas podem não ser câncer. Uma das condições benignas que o especialista precisa diferenciar de um tumor é a ginecomastia, o aumento não canceroso da mama masculina. Quando o diagnóstico de câncer é confirmado, o tratamento é planejado de forma individualizada e pode incluir cirurgia, radioterapia, quimioterapia e terapia hormonal, conforme o estágio e as características do tumor.
Depois do diagnóstico, a família também entra no cuidado
As recomendações atuais orientam que todo homem com câncer de mama receba aconselhamento genético e realize teste genético, independentemente do histórico familiar. Se for identificada uma alteração em genes como o BRCA2, filhas, filhos, irmãs e irmãos podem ser orientados sobre prevenção e acompanhamento específicos. O cuidado com um homem, nesse caso, pode se estender a toda a família.
O consultório também é lugar de homem
O constrangimento é real e merece respeito, mas não pode adiar o diagnóstico. O consultório de mastologia é um espaço de cuidado com as mamas, e isso inclui as mamas masculinas. Se você notou qualquer alteração na mama ou na axila, procure avaliação médica. Se alguém próximo comentou um sintoma, incentive a consulta.
Dr. Rodrigo Campos Christo | Médico | CRM-MG 29043 | Mastologista RQE 20159
Referências
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- Instituto Nacional de Câncer (INCA). Câncer de mama: vamos falar sobre isso? 8ª ed. Rio de Janeiro: INCA, 2023.
