Novembro Azul
Você sabia que Homem também tem mama? O que todo homem e toda família precisam saber
Quando se fala em câncer de mama, a imagem que vem à mente é quase invariavelmente a de uma mulher. As campanhas, as cores e as mensagens de prevenção são, com razão, dirigidas ao público feminino, que responde pela imensa maioria dos casos. Há, porém, uma informação que pouca gente conhece e que merece espaço no Novembro Azul, o mês dedicado à saúde masculina: o homem também pode ter câncer de mama.
Aqui, vamos entender por que a doença acontece, quem tem maior risco e quais sinais merecem atenção.
Sim, o homem tem tecido mamário
A explicação começa pela anatomia. O homem possui tecido mamário em pequena quantidade, localizado logo atrás da aréola. Esse tecido contém ductos, estruturas semelhantes às encontradas na mama feminina, e é justamente neles que surge a maior parte dos tumores. Sob determinadas influências hormonais e genéticas, essas células podem sofrer transformação maligna, da mesma forma que ocorre nas mulheres.
Quão frequente é a doença
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), os homens representam cerca de 1% dos casos de câncer de mama. Nos Estados Unidos, a American Cancer Society estima que o risco de um homem desenvolver a doença ao longo da vida seja de cerca de 1 em 755, e que, em 2026, aproximadamente 2.670 homens recebam o diagnóstico de câncer de mama invasivo naquele país.
A idade é um fator determinante. O risco aumenta com o envelhecimento, e a idade média ao diagnóstico fica entre 60 e 70 anos. No maior estudo internacional já realizado sobre o tema, conduzido pela EORTC e publicado no Annals of Oncology em 2018 com 1.483 pacientes, a idade mediana ao diagnóstico foi de 68,4 anos.
Como é o tumor no homem
O câncer de mama masculino tem um perfil biológico próprio. O mesmo estudo da EORTC mostrou que ele costuma expressar receptores de estrogênio, progesterona e androgênio e ser negativo para a proteína HER2. Uma revisão publicada na revista The Lancet aponta que cerca de 90% desses tumores são positivos para receptor de estrogênio. Na prática, isso significa que a maioria é sensível a hormônios, característica que orienta a escolha do tratamento.
Quem tem maior risco
Além da idade, a genética ocupa lugar central. Alterações no gene BRCA2 são o fator hereditário mais fortemente associado ao câncer de mama masculino e respondem por cerca de 10% dos casos, enquanto o BRCA1 responde por aproximadamente 2%. Um estudo publicado no Journal of the National Cancer Institute, que analisou dados de 1.939 famílias, estimou que o risco acumulado de câncer de mama até os 70 anos é de 6,8% para homens portadores de mutação em BRCA2 e de 1,2% para portadores de mutação em BRCA1. Outros genes, como CHEK2 e PALB2, também têm sido associados a risco aumentado.
O histórico familiar também pesa. Entre 15% e 20% dos homens diagnosticados têm ao menos um parente de primeiro grau com câncer de mama, e homens com pai, mãe, irmão ou irmã afetados apresentam risco duas a três vezes maior.
Há ainda condições que elevam a proporção de estrogênio no organismo masculino. A literatura científica descreve como associadas a maior risco a síndrome de Klinefelter, a obesidade, o consumo excessivo de álcool, a cirrose hepática e alterações nos testículos. A exposição prévia à radiação na região do tórax também integra essa lista.
Um esclarecimento importante: a ginecomastia, que é o aumento benigno da mama masculina, segundo a revisão do Lancet, não aumenta por si só o risco de câncer. Ainda assim, ela precisa ser diferenciada de um tumor por meio de avaliação especializada.
Os sinais de alerta
Em sua cartilha sobre câncer de mama, dirigida a mulheres e homens, o INCA lista os seguintes sinais de alerta:
- caroço endurecido, fixo e geralmente indolor;
- alterações no mamilo;
- saída espontânea de líquido pelo mamilo;
- pele da mama avermelhada, retraída ou parecida com casca de laranja;
- pequenos nódulos na axila ou no pescoço.
O caroço é a principal manifestação da doença: segundo o INCA, está presente em mais de 90% dos casos. A mesma cartilha lembra que essas alterações precisam ser investigadas o quanto antes, mas podem não ser câncer de mama. Em uma série de 56 pacientes tratados em Hong Kong e publicada na revista Cancer Medicine, 55 deles procuraram atendimento inicialmente por causa de um caroço sem dor na mama. A ausência de dor, aliás, é um dos motivos pelos quais muitos homens não dão importância ao sintoma.
Por que isso também importa para as mulheres
De acordo com o INCA, ter um homem na família com câncer de mama é um fator de risco hereditário também para as mulheres. Quando um pai, irmão ou tio recebe o diagnóstico, a informação deve ser levada ao médico das mulheres da família, porque pode indicar uma alteração genética compartilhada. Por essa razão, as recomendações atuais orientam que todo homem com câncer de mama receba aconselhamento genético e realize teste genético, independentemente do histórico familiar.
O primeiro passo é saber que é possível
Conhecer a doença é o ponto de partida para percebê-la a tempo. Se você notou alguma alteração na mama ou na axila, procure avaliação médica. E se este texto foi útil, compartilhe com um homem que você ama.
No próximo texto, vamos falar sobre por que quase ninguém fala desse assunto e o que essa falta de informação representa para o diagnóstico.
Dr. Rodrigo Campos Christo | Médico | CRM-MG 29043 | Mastologista RQE 20159
Referências
- Instituto Nacional de Câncer (INCA). Câncer de mama: vamos falar sobre isso? 8ª ed. Rio de Janeiro: INCA, 2023.
- American Cancer Society. Key Statistics for Breast Cancer in Men. Revisão de 13/01/2026.
- Fentiman IS, Fourquet A, Hortobagyi GN. Male breast cancer. The Lancet. 2006;367(9510):595-604.
- Cardoso F, Bartlett JMS, Slaets L, et al. Characterization of male breast cancer: results of the EORTC 10085/TBCRC/BIG/NABCG International Male Breast Cancer Program. Annals of Oncology. 2018;29(2):405-417.
- Tai YC, Domchek S, Parmigiani G, Chen S. Breast cancer risk among male BRCA1 and BRCA2 mutation carriers. Journal of the National Cancer Institute. 2007;99(23):1811-1814.
- Genetic Landscape of Male Breast Cancer. Cancers. 2021;13(14):3535.
- Male Breast Cancer: An Updated Review of Epidemiology, Clinicopathology, and Treatment. Journal of Oncology. 2022.
- Co M, Lee A, Kwong A. Delayed presentation, diagnosis, and psychosocial aspects of male breast cancer. Cancer Medicine. 2020;9(10):3305-3309.
