Dr Rodrigo Campos Christo

Câncer de Mama em Homens – Texto II

Novembro Azul

Por que quase ninguém fala sobre câncer de mama em homens?

No texto anterior, vimos que o homem também tem tecido mamário e que, embora rara, a doença existe e tem sinais de alerta conhecidos. Se a informação está disponível, por que tão pouca gente sabe disso? E o que essa falta de conhecimento representa para quem adoece? É sobre isso que vamos falar.

Uma doença percebida como feminina

O câncer de mama é, culturalmente, associado às mulheres. Os autores de um estudo publicado em 2020 na revista científica Cancer Medicine lembram que as campanhas do laço rosa, iniciadas no começo dos anos 1990, tiveram enorme êxito em ampliar a conscientização sobre a doença. A palavra “mama” e a cor rosa, porém, estão tradicionalmente ligadas à feminilidade, e isso contribui para que muitos homens não se reconheçam como possíveis pacientes.

Essa percepção aparece também em outras pesquisas citadas no mesmo artigo. Em um estudo norte-americano publicado no American Journal of Nursing, que entrevistou 28 homens sem a doença, mas com histórico de câncer de mama na família materna, 79% não sabiam que homens podiam ter câncer de mama, e nenhum deles havia recebido do médico de atenção primária qualquer orientação sobre o tema. Segundo o artigo da Cancer Medicine, um dos participantes chegou a afirmar que homens não têm mamas, e sim peito. A frase resume uma ideia comum: a de que a mama masculina seria apenas uma estrutura sem importância. Somada ao fato de que o nódulo costuma ser indolor, essa visão faz com que muitos homens deixem o sintoma de lado.

O que um estudo revelou

O estudo da Cancer Medicine foi conduzido em Hong Kong por pesquisadores da Universidade de Hong Kong. Os autores revisaram os casos de 56 homens tratados de câncer de mama em seu centro entre 1998 e 2018 e entrevistaram por telefone 31 pacientes que permaneciam em acompanhamento.

Os resultados são reveladores. Dos 31 entrevistados, 26 não sabiam que homens podiam ter câncer de mama antes de receberem o diagnóstico. O intervalo entre perceber o sintoma e ir à primeira consulta foi de 12,4 meses, chegando a dez anos no caso mais extremo. Os autores observam que outros trabalhos da literatura descrevem atrasos de 14 a 21 meses, o que indica que o problema não é isolado.

Esse tempo perdido teve consequências. No mesmo grupo de pacientes, 67,8% já apresentavam comprometimento dos linfonodos no momento do diagnóstico, e 10,7% tinham metástases à distância. Os autores concluem que a falta de conhecimento, a ausência de educação pública sobre o tema e o constrangimento estão entre as razões mais importantes para a demora em procurar atendimento, e que esses atrasos são evitáveis.

É importante interpretar esses números com cuidado: trata-se de um estudo realizado em um único centro, com um número pequeno de pacientes e em outro país. Ainda assim, ele é um dos poucos a investigar diretamente por que os homens chegam tarde, e seus achados são coerentes com o que mostram pesquisas maiores.

O preço do diagnóstico tardio

Uma revisão publicada na revista The Lancet registra que mais de 40% dos homens com câncer de mama chegam ao diagnóstico já em estágio III ou IV.

Um estudo publicado no JAMA Oncology em 2019 dimensiona essa diferença em grande escala. Os pesquisadores compararam 16.025 homens e mais de 1,8 milhão de mulheres diagnosticados com câncer de mama nos Estados Unidos entre 2004 e 2014. Entre os homens, 14,0% foram diagnosticados em estágio III e 5,8% em estágio IV; entre as mulheres, esses percentuais foram de 8,9% e 3,8%. A sobrevida global em cinco anos foi de 77,6% para os homens e de 86,4% para as mulheres, e a diferença se manteve em todos os estágios.

Segundo os autores, as diferenças nas características clínicas e no tratamento recebido explicaram cerca de 63% dessa disparidade. O estudo também mostrou que homens com tumores sensíveis a hormônios tinham menor probabilidade de receber a terapia endócrina indicada. Em outras palavras, parte da desvantagem masculina está ligada a fatores que podem ser modificados: chegar mais cedo e receber o tratamento completo.

Também falta informação na ciência

A escassez de informação não se limita ao público. Por ser uma doença rara, o câncer de mama masculino foi pouco estudado em ensaios clínicos, e grande parte das condutas ainda é extrapolada de pesquisas feitas com mulheres. Foi para enfrentar essa lacuna que a EORTC, em colaboração com grupos internacionais de pesquisa, lançou em 2006 o Programa Internacional de Câncer de Mama Masculino, cujo objetivo é caracterizar a biologia da doença e desenvolver estudos específicos para homens.

O artigo da Cancer Medicine acrescenta que a falta de conhecimento persiste também entre profissionais de saúde, e que alguns estudos relatam homens cujos sintomas foram inicialmente desconsiderados no atendimento primário. Por isso, os autores defendem iniciativas de informação voltadas ao público masculino e materiais educativos que não se dirijam apenas às mulheres.

Informação muda o desfecho

Se a falta de informação é parte do problema, a informação é parte da solução. O Novembro Azul é uma oportunidade de ampliar a conversa sobre a saúde do homem para além da próstata e de lembrar que qualquer alteração na mama ou na axila merece avaliação médica.

Se você conhece um homem que precisa saber disso, compartilhe este texto. No próximo e último texto da série, vamos falar sobre um obstáculo pouco comentado, mas muito presente: a vergonha.

Dr. Rodrigo Campos Christo | Médico | CRM-MG 29043 | Mastologista RQE 20159

Referências

  1. Co M, Lee A, Kwong A. Delayed presentation, diagnosis, and psychosocial aspects of male breast cancer. Cancer Medicine. 2020;9(10):3305-3309.
  2. Thomas E. Men’s awareness and knowledge of male breast cancer. American Journal of Nursing. 2010;110(10):32-40.
  3. Fentiman IS, Fourquet A, Hortobagyi GN. Male breast cancer. The Lancet. 2006;367(9510):595-604.
  4. Wang F, Shu X, Meszoely I, et al. Overall mortality after diagnosis of breast cancer in men vs women. JAMA Oncology. 2019.
  5. Cardoso F, Bartlett JMS, Slaets L, et al. Characterization of male breast cancer: results of the EORTC 10085/TBCRC/BIG/NABCG International Male Breast Cancer Program. Annals of Oncology. 2018;29(2):405-417.

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