Na epidemiologia do câncer de mama, os diagnósticos mais frequentes são observados na peri-menopausa ou, de uma maneira simplista, depois dos 50 anos. Essa ideia moldou políticas públicas, protocolos clínicos e, principalmente, o comportamento das próprias mulheres em relação ao rastreamento. Os dados epidemiológicos mais recentes, porém, estão pedindo uma revisão desse entendimento.
Não se trata de criar alarme. Trata-se de olhar para os números com seriedade e perguntar se as práticas de prevenção acompanharam o que a ciência vem documentando.
O Painel Oncologia Brasil, analisado pelo Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR), reuniu dados de todos os diagnósticos de câncer de mama registrados no país entre 2018 e 2023. O resultado chamou atenção dos especialistas: nesse período, mais de 108 mil mulheres com menos de 50 anos receberam o diagnóstico da doença. Esse número representa cerca de 33% de todos os casos confirmados no mesmo intervalo de tempo¹.
Em termos absolutos, foram 71.204 diagnósticos na faixa entre 40 e 49 anos e outros 19.576 em mulheres de 35 a 39 anos. Somados, esses grupos equivalem a quase um terço do total nacional.
Para além das faixas etárias, o crescimento geral dos casos também é relevante. Em 2018, o Brasil registrou 40.953 novos diagnósticos de câncer de mama. Em 2023, esse número chegou a 65.283, um crescimento de 59% em seis anos¹. A projeção do Instituto Nacional do Câncer (INCA) aponta para 73.610 novos casos em 2025, mantendo o câncer de mama como a principal causa de morte por câncer entre as mulheres brasileiras³.
A Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) tem denominado esse movimento de “rejuvenescimento” do câncer de mama, termo que indica a tendência sistemática de aumento de diagnósticos em mulheres que historicamente não eram consideradas o grupo prioritário de vigilância².
O que se observa nos dados brasileiros ecoa em outros países, o que reforça a relevância epidemiológica do fenômeno.
Na França, um estudo publicado em agosto de 2025 na revista The Breast (Elsevier), com base em registros nacionais de câncer cobrindo 229.352 casos, mostrou que a taxa de incidência do câncer de mama em mulheres de 30 anos cresceu de 16,1 para 26,3 casos por 100 mil entre 1990 e 2023. Na faixa dos 40 anos, o aumento foi de 98,7 para 131,2 por 100 mil no mesmo período⁴.
Nos Estados Unidos, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) publicou em agosto de 2025 que a incidência de câncer de mama em mulheres abaixo dos 45 anos cresceu uma média de 1,1% ao ano entre 2012 e 2022, após um período anterior de estabilidade⁵.
A análise global mais ampla vem do estudo publicado em junho de 2025 no BMC Cancer, baseado nos dados do Global Burden of Disease 2021. O trabalho mostrou que o ritmo de aumento anual da incidência em mulheres jovens (AAPC de 0,91) foi quase o dobro da média observada na população geral (AAPC de 0,49), e que essa aceleração foi consistente em diferentes regiões do mundo⁶.
No próprio Brasil, um estudo publicado em janeiro de 2025 também no BMC Cancer, com base nos registros populacionais de câncer brasileiros entre 2010 e 2019, confirmou aumento significativo da incidência no grupo com menos de 40 anos, com variação percentual anual de **+1,6 (IC95%: 1,0 a 2,2; p menor que 0,001)**⁷.
O que explica esse padrão?
A ciência não oferece uma resposta única, e isso é importante reconhecer. O que existe é um conjunto de hipóteses que vêm sendo investigadas de forma consistente.
As mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 são um dos fatores mais bem documentados. Segundo a SBM, essas alterações genéticas estão associadas a um risco de até 80% de desenvolvimento de câncer de mama ao longo da vida e de até 40% para o câncer de ovário². Mulheres com histórico familiar de primeiro grau portadoras dessas mutações precisam de avaliação personalizada, independentemente da idade.
Os dados brasileiros também apontam para características tumorais particulares nessa população. O estudo publicado no BMC Cancer com registros hospitalares nacionais identificou uma proporção maior de tumores triplo-negativos em mulheres abaixo dos 40 anos, um subtipo de maior velocidade de progressão e sem resposta a terapias hormonais⁷. Além disso, o mesmo grupo apresentou proporcionalmente mais diagnósticos em estágios avançados (estágio IIB ou superior), o que está diretamente relacionado à ausência de rastreamento sistemático nessa faixa etária.
Entre os fatores de risco comportamentais e ambientais que vêm sendo estudados estão o sedentarismo, a obesidade, o consumo de álcool, a maternidade tardia, o menor tempo de amamentação e a exposição a substâncias com ação disruptora do sistema endócrino. Esses fatores não determinam o surgimento da doença de forma isolada, mas integram um cenário de risco que pode ser avaliado e discutido em consulta médica.
A política oficial do SUS, baseada nas diretrizes do INCA desde 2004, recomenda mamografia de rastreamento a cada dois anos para mulheres entre 50 e 69 anos. O próprio INCA, em posicionamento público de março de 2025, reafirmou essa faixa como a prioridade dentro do sistema público, alegando que as evidências disponíveis ainda não justificam a ampliação para toda a população de forma universal⁹.
No entanto, esse entendimento não é consensual entre as entidades médicas brasileiras. Em fevereiro de 2025, CBR, SBM e FEBRASGO publicaram um Parecer Técnico Científico conjunto recomendando rastreamento mamográfico anual, preferencialmente com mamografia digital, para todas as mulheres dos 40 aos 74 anos, com avaliação individualizada a partir dos 75 anos⁹. O parecer conta com o apoio da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), da Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT) e do Conselho Federal de Medicina (CFM).
O argumento central dessas entidades é direto: se 40% das mulheres diagnosticadas com câncer de mama no Brasil têm menos de 50 anos e 20% têm mais de 69 anos, uma política que cobre apenas a faixa dos 50 aos 69 anos deixa 60% dos casos fora da janela oficial de detecção precoce⁹.
A Nota Técnica da Comissão Nacional de Mamografia, publicada em janeiro de 2025, registra ainda que 22% dos óbitos por câncer de mama no Brasil ocorrem antes dos 50 anos e 34% ocorrem após os 70 anos⁹, o que evidencia o custo real dessa lacuna na cobertura.
Independentemente do debate sobre faixas etárias nas políticas públicas, há um ponto sobre o qual não existe controvérsia na literatura médica: o estadiamento no momento do diagnóstico é um dos principais determinantes do prognóstico.
Quando detectado na fase inicial, com tumor localizado e sem comprometimento de linfonodos, a taxa de sobrevida em cinco anos supera 99%. Nos estágios avançados, esse número cai de forma expressiva. O dado positivo que o relatório do Ministério da Saúde de 2025 aponta é justamente uma tendência de redução da mortalidade entre mulheres de 40 a 49 anos, associada ao maior acesso ao diagnóstico precoce nessa faixa³.
A mamografia continua sendo o exame de maior custo-efetividade para rastreamento populacional. Não previne o surgimento do tumor, mas permite identificá-lo em um estágio em que o tratamento é mais eficaz, menos agressivo e com maiores possibilidades de cura.
Sem transformar esse texto em prescrição médica, porque cada situação exige avaliação individual, alguns pontos merecem atenção.
Mulheres com histórico familiar de câncer de mama ou ovário em parentes de primeiro grau, com diagnóstico prévio de lesões de alto risco ou com mutações genéticas conhecidas precisam de uma conversa com seu médico sobre quando e com que frequência iniciar o rastreamento. Essa avaliação personalizada pode antecipar o início dos exames e incluir outros métodos além da mamografia, como a ressonância magnética.
Para mulheres sem fatores de risco identificados, as sociedades CBR, SBM e FEBRASGO recomendam que a conversa sobre rastreamento comece aos 40 anos. O INCA mantém a recomendação formal a partir dos 50, mas reconhece que mulheres entre 40 e 49 anos com acesso a serviços de saúde podem discutir o tema com seus médicos de forma individual.
Em qualquer idade, sinais como nódulo palpável de consistência endurecida, alterações na pele da mama, retração do mamilo, secreção espontânea pelo mamilo ou linfonodos endurecidos na axila devem ser avaliados por um profissional de saúde sem demora. O câncer de mama em fase inicial frequentemente não produz sintomas perceptíveis, mas quando eles aparecem, a investigação precisa ser rápida.
Os dados apresentados aqui não são novidade para quem acompanha a literatura científica na área. Eles vêm sendo publicados de forma consistente ao longo dos últimos anos, em periódicos revisados por pares, por registros populacionais de diferentes países e pelas principais entidades médicas do Brasil.
O que muda, ao colocar essas informações em linguagem acessível, é a possibilidade de que mais mulheres entrem nessa conversa com seus médicos munidas de informação, e não de medo.
Rastreamento é, fundamentalmente, um ato de conhecimento. Conhecimento sobre o próprio corpo, sobre o histórico familiar e sobre o que a medicina tem disponível para oferecer em uma prevenção efetiva ou até mesmo em um tratamento precoce.
Dr. Rodrigo Campos Christo
Mastologista/Cirurgião de Mamas
* Conteúdo informativo. Não substitui a necessidade de consulta médica, exame físico e orientação individualizada.
Referências
¹ Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR). Análise do Painel Oncologia Brasil, 2018–2023. Publicado em junho de 2025.
² Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM). Audiência Pública da Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados. Brasília, maio de 2024.
³ Ministério da Saúde / INCA. Controle do Câncer de Mama no Brasil: Dados e Números 2025. Brasília, outubro de 2025.
⁴ Pujol P et al. Increasing incidence of breast cancer in young women over time. The Breast, Elsevier. PMC12351116. Publicado em agosto de 2025.
⁵ Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Breast Cancer Among Women Younger Than 45. U.S. Cancer Statistics, agosto de 2025.
⁶ Wu et al. Global, regional, and national burden of breast cancer in young women from 1990 to 2021: findings from the GBD study 2021. BMC Cancer, v.25, art.1015, junho de 2025.
⁷ Araújo et al. Breast cancer patterns by age groups in Brazil: insights from population-based registries data. BMC Cancer, v.25, art.18, janeiro de 2025.
⁸ Bernardi TC et al. Incidência crescente de câncer de mama em mulheres entre 40 e 49 anos no Brasil (2014–2023). Cuadernos de Educación y Desarrollo (Qualis A4), fevereiro de 2025.
⁹ CBR, SBM, FEBRASGO. Parecer Técnico Científico sobre a importância do início do rastreamento mamográfico aos 40 anos e acima de 70 anos. Fevereiro de 2025. Comissão Nacional de Mamografia, Nota Técnica, janeiro de 2025. INCA, Posicionamento Oficial, março de 2025.
