Canetas emagrecedoras: O que San Antonio 2025 trouxe de evidências sobre canetas para perda de peso após o câncer de mama

O cuidado da mulher após o tratamento do câncer de mama evoluiu. Hoje, não falamos apenas de controle da doença, mas de sobrevida com qualidade, redução de riscos futuros e enfrentamento de fatores modificáveis que impactam diretamente o prognóstico. Nesse contexto, o tema das chamadas “canetas” para perda de peso ganhou espaço relevante nas discussões do San Antonio Breast Cancer Symposium (SABCS) 2025.

O que se evidenciou no SABCS 2025 foi claro: até o momento, não há evidência de aumento do risco de recorrência do câncer de mama associado ao uso das canetas, quando utilizados após o tratamento oncológico. Os dados disponíveis, provenientes de estudos observacionais e análises de mundo real, não demonstraram sinal de alerta que justifique uma contraindicação automática dessas medicações em pacientes que tiveram câncer de mama.

É igualmente importante reconhecer os limites da evidência atual. Ainda não dispomos de estudos prospectivos randomizados de longo prazo especificamente desenhados para essa população. Essa lacuna foi explicitamente reconhecida no congresso e reforça a necessidade de uso criterioso, monitorado e individualizado.

Outro ponto central destacado no SABCS foi que o foco não deve estar apenas na medicação, mas no impacto metabólico global. A obesidade e o ganho de peso após o câncer de mama são fatores reconhecidos de pior prognóstico, especialmente nos tumores hormônio-dependentes. Reduzir peso, melhorar resistência insulínica e diminuir inflamação sistêmica não são objetivos estéticos — são estratégias de cuidado oncológico ampliado.

No entanto, o congresso também deixou um alerta claro: emagrecer mal é um risco. A perda de massa muscular, a sarcopenia (redução de massa e função muscular), podem ocorrer quando essas medicações são utilizadas sem acompanhamento adequado, especialmente em mulheres que já passaram por quimioterapia ou estão em uso de hormonioterapia. Por isso, essas medicações não devem ser usadas de forma isolada ou indiscriminada.

Nas pacientes com câncer de mama receptor hormonal positivo, não foi estabelecida contraindicação formal. O que se impõe é a avaliação individualizada, a decisão compartilhada e o acompanhamento multidisciplinar, envolvendo mastologista, endocrinologista e nutricionista, sempre que indicado.

A mensagem final que o SABCS 2025 nos deixa é madura e equilibrada: as canetas não são vilãs nem solução mágica. São ferramentas possíveis dentro de um cuidado moderno, quando bem indicadas, bem monitoradas e inseridas em uma estratégia mais ampla de saúde.

Ignorar a obesidade no seguimento do câncer de mama é um erro.
Utilizar medicações sem critério também é.

O caminho responsável está no bom senso : dados, individualização e cuidado centrado na paciente.


Dr. Rodrigo Campos Christo
Mastologista | Cirurgião de Mama
CRM-MG 29043 | RQE 20159

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