A cirurgia do câncer de mama mudou profundamente nas últimas décadas. O que antes era sinônimo de retirada total da mama hoje é uma entre várias opções, reservada a situações específicas. Dados do National Cancer Database dos Estados Unidos, publicados em 2024, mostram queda das mastectomias de cerca de 42% em 2010 para 33% em 2023, em análise com mais de 1,7 milhão de pacientes com câncer de mama em estádios I a III. A maioria das mulheres operadas, cerca de 63%, foi tratada com cirurgia conservadora. Essa virada reflete avanços técnicos, melhor compreensão da biologia tumoral, maiores respostas aos esquemas de quimiterapia pré-operatória, diagnóstico precoces devido ao correto rastreamento mamográfico e uma visão mais ampla do que significa tratar bem cada paciente.
Nesse cenário, a oncoplastia ocupa papel central. A cirurgia oncoplástica combina princípios de cirurgia oncológicos e técnicas da cirurgia plástica para permitir ressecções adequadas do tumor sem comprometer a forma da mama. Na prática, casos que antes terminariam em mastectomia por risco de deformidade passam a ser candidatos à preservação. Ao redistribuir o tecido glandular, remodelar a mama operada e, quando necessário, ajustar a mama contralateral para simetria, esta cirurgia amplia as possibilidades da cirurgia conservadora sem abrir mão de margens livres, mantendo a boa estética mamária.
A pergunta que surge é se preservar a mama é tão seguro quanto retirá-la. As evidências indicam que sim, quando a indicação é correta. Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2025 no Scientific Reports, que avaliou 80 estudos e mais de 17 mil casos, demonstrou taxa de recidiva local em torno de 2% e necessidade de nova cirurgia por margem comprometida em 5%. Outra análise combinada, publicada na revista Breast Cancer em 2023 e reunindo 6.941 pacientes, confirmou não haver diferença estatisticamente significativa entre oncoplastia e cirurgia conservadora convencional em recidiva local, margens próximas ou conversão para mastectomia.
Além do controle do tumor, a oncoplastia impacta diretamente a qualidade de vida. A satisfação global das pacientes é alta, acima de 80%, chegando a mais de 90% em técnicas de deslocamento de volume. As complicações são pouco frequentes; a mais comum é a necrose gordurosa, observada em até 7% dos casos com técnicas de substituição de volume. O resultado estético integra o cuidado e influencia autoestima, imagem corporal e bem-estar ao longo do tratamento.
A tendência à conservação não elimina a importância da mastectomia. Ela continua sendo a melhor opção em doença extensa, quando não é tecnicamente possível obter margens livres, em casos com múltiplos focos ou tumores volumosos em mamas pequenas, quando há contraindicação à radioterapia ou por escolha informada da própria paciente. O que muda é o ponto de partida. Em vez de optar de imediato pela cirurgia mais radical, busca-se a abordagem que melhor equilibra controle oncológico e qualidade de vida para aquela pessoa, naquele momento. Essa mudança de perspectiva é, provavelmente, o avanço mais significativo.
Dr. Rodrigo Campos Christo
Mastologista/Cirurgião de Mamas
* Conteúdo informativo. Não substitui a necessidade de consulta médica, exame físico e orientação individualizada.
Referências
- Nassif MO et al. Evolution of Breast Cancer Treatment 2010–2023. Annals of Surgical Oncology, 2024. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41559461/
- Nyirády LE et al. Evaluating oncoplastic breast-conserving surgery: oncological safety, risks, and satisfaction: a systematic review and meta-analysis. Scientific Reports, 2025. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-025-30062-w
- Abdelfattah A et al. Oncoplastic versus conventional breast-conserving surgery in breast cancer: a pooled analysis of 6941 female patients. Breast Cancer (Springer Nature), 2023. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s12282-022-01430-5
- Pai M et al. Impact of oncoplasty in increasing breast conservation rates post neoadjuvant chemotherapy. Frontiers in Oncology, 2023. Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/oncology/articles/10.3389/fonc.2023.1176609/full
